Zurro#25
A Casa dos Milagres | Vale do Anhangabaú | Asa de Corvo | Contemporâneos
A Casa dos Milagres
Essa quem me contou foi o Genghis Khan, o cavalo do compadre Romualdo Cervantes. Disse que na noite da última sexta-feira, como de costume, seu dono foi lá pras bandas do Forró da Zuleica, nome fantasia da casa de tolerância que a velha Zuleica mantém lá pros lados de Simbora Daqui, último bairro de São João do Quentão. Disse ele, o Genghis, que naquela noite, forró rolando solto, casa de Zuleica lotada de homem de tudo que é fazenda da região, encontraram-se dois desafetos que há muito tempo não se viam, mas que já haviam se jurado de morte por um desentendimento na Fazenda Pula Cabrito: Zé Corinthians e Lona Preta. Zé Corinthians era um sujeito vermelho de Sol ou “reiva”, cabelo amarelado meio sarará, olhos da cor da chama de uma vela, baixinho, atarracado, quase sem pescoço. Já Lona Preta era um negão com quase um pé direito de altura, forte como touro, sombrio como uma noite no cemitério e com uma voz mais tenebrosa que vento entrando por fresta de janela.
Mas ficaram lá, cada um num canto da sala da casa da velha Zuleica, até que Lona Preta resolveu mexer com a menina preferida de Zé Corinthians. A Jucicleide Maçaneta até tentou, mas a mão do Lona Preta apertando o seu braço parecia um laço de vaqueiro num novilho assustado. A menina não conseguia sair do lugar e com um olho torto e o outro esbugalhado, olhava na direção de Zé Corinthians que, depois de virar mais uma dose de cachaça, deu foi falta de sua “maçanetinha” e viu, justo o diabo do Lona Preta, com a mão já na fechadura da menina. Aí não prestou! O homem levantou já na fúria de um boi bravo e partiu com tudo pra cima do negão. Vendo aqueles olhos amarelos se aproximando, Lona Preta largou o braço da Jucicleide e se levantou da cadeira como uma sombra de poste ganhando altura numa parede conforme roda a Terra ou anda o Sol no céu.
Sem falar uma só palavra, Zé Corinthians já foi puxando uma peixeira maior do que ele e partindo pra cima do negão que ainda nem tinha conseguido terminar de levantar da cadeira. Lona Preta também tratou de puxar o seu facão e já no primeiro toque das lâminas se fez som de trovão e saiu faísca do choque das duas armas como se fosse um raio no meio do salão da velha casa da velha Zuleica.
Acontece; que nesse dia, pra complicar ainda mais o causo, o compadre Romualdo Cervantes e mais outros peões da Fazenda Chumbo Trocado, resolveram levar também o Tonho – um auxiliar de cozinha que era mudo – e o Juliano – um ajudante do cavalariço – para se divertirem com as moças do “forró”. Mas o detalhe da história é que o Juliano tinha problemas de locomoção (ou seja, era o antigo aleijado na literatura politicamente incorreta). E no meio do tumulto que se seguiu à briga do Zé Corinthians com o Lona Preta, a turma se perdeu do Tonho e do Juliano. No meio do corre-corre, algum desgraçado ainda esbarrou na fiação e acabou cortando a energia do salão. Saiu o som do forró e ficou só o grito das raparigas e a luz das peixeiras soltando faísca no meio da escuridão. Lona Preta e Zé Corinthians pareciam dois jedis do cangaço. Como sempre, mais espertas do que os homens, várias moças se trancaram num dos quartos do puteiro quando chegou, bêbado, o compadre Herculano Bastos – cabra metido a muito macho – batendo na porta e gritando:
– Deixa eu entrar! Deixa eu entrar!
Uma das quengas respondeu segurando a porta:
– Mas aqui dentro só tem mulher, senhor.
– E quem disse que aqui fora tem homem? – decretou o Herculano com uma sinceridade que só se vê diante da morte.
O desespero já era grande quando a maioria conseguiu pegar o rumo da porta da rua ou das janelas que estivessem abertas pra sair do meio daquele cenário de filme de terror. Já longe da casa o suficiente pra só ouvir as facas se tocando e ver os flashes da batalha, o compadre Romualdo Cervantes deu falta do Tonho e do Juliano.
– Oxê! E agora? Cadê os dois? Ficaram lá dentro da casa de Zuleica? O que nós vai falar lá na fazenda? O patrão vai arrancar nosso couro. – exclamou na tentativa de reunir mais uns dois peões para voltar lá no forró pra tentar resgatar os dois sujeitos. Coisa que, felizmente, nem foi necessária. No meio do caminho da porta, viram o Tonho que vinha correndo feito um louco com os olhos esbugalhados como se tivesse visto o capeta.
– Tonho! Tonho! Cadê o Juliano? – perguntou o Romualdo pro pobre do mudinho.
– Pá bindo aê! Pá bindo aê! – respondeu o Tonho sem parar de correr até chegar à fazenda.
Mal o Tonho terminou de passar, eles se viraram novamente na direção da casa da Zuleica e viram o Juliano vindo correndo mais veloz do que o Usain Bolt e ainda por cima carregando a Selminha Paradise nos braços. Passou por eles correndo que não deu nenhuma palavra.
Segundo puderam apurar depois do ocorrido, o Juliano já tinha colocado quase o salário inteiro do mês na calcinha da Selminha pra perder aquele programa por causa de uma briguinha besta que nem aquela. E foi depois desse dia que a casa da Zuleica passou a ser conhecida com a Casa dos Milagres, pois numa única sessão, um mudo falou, um aleijado andou e até o valente Herculano Bastos mudou de sexo.
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Vale do Anhangabaú
Dessas pequenas felicidades do dia a dia, pequeninas mesmo, quase sem relevância para o restante dos mortais, registro aqui o fato de não precisar mais pegar o Metrô até a Barra Funda e ter de ouvir, duas vezes por dia, a voz do vagão dizendo: Próxima parada, Ai-Anhagabaú. A coisa me incomodava de tal forma que eu cheguei a mandar mensagem pro Metrô – pelo Twitter - e eles me responderam com Cacacás (kkkkk) tamanha a estranheza, presumo, que sentiram de alguém reclamando disso.
Ora, quem se importa com os vendedores ambulantes, com os rappers com suas caixas de som e músicas ruins, com o vagão lotado e o trem, o azul, sem ar condicionado. Suporto tudo, mas o Ai-Anhangabaú era um tiro no meu peito toda manhã e todo final de tarde. Até meu filho já sabe da minha bronca com o raio do nome gritado errado. Chegará o dia em que preferirei dar a volta pela CPTM até Osasco para chegar a Barra Funda só para não ter o desprazer de ouvir Ai Ai Ai Anhagabaú de novo.
Anhangabaú é palavra indígena e significa, em tupi, rio ou água do mau espírito. Mas Ai-Anhangabaú é palavra inventada por algum espírito de porco que gravou isso errado pra todo dia atormentar a viagem já fantasmagórica de parte – eu – dos usuários do Metrô de São Paulo.
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Asa de Corvo
Asa de corvos carniceiros, asa,
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre ás vezes o espaço e cobre ás vezes
O telhado de nossa própria casa...
Perseguido por todos os revezes,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto á brasa,
Como os Goucourts, como os irmãos siamezes!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o panno preto
Que as famílias de lucto martyriza...
É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária-
Cose para o homem a última camisa!
(Augusto dos Anjos)
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Contemporâneos
O mundo de um indivíduo pra lá de normal é um punhadinho de gente que com ele guarda alguma semelhança. Difícil acreditar em quem se dê com todo mundo, com uma desenvoltura sincera. Não tenho tal habilidade. Eu não consigo me relacionar com pessoas de todas as idades, não por diferenças ou indiferença, mas sim por falta de contexto. Meu mundinho gira em torno de pessoas mais ou menos da minha idade. Viveram algo parecido com o que eu vivi, viram o que vi, ouviram o que ouvi.
E é tudo.
O mundo da gente é uma relação, 90% do tempo, com nossos contemporâneos. Não entendo o linguajar dos jovens, assim como não acompanho o pensamento dos muito mais velhos. Todos parecemos estar em sintonias diferentes, em frequências distintas, vivendo somente no mesmo espaço, mas separados por algo maior do que nossa própria compreensão ou mesmo desejo. Viver a idade é importante. Ocupo-me agora de adotar outros hobbies, como fumar cachimbo, quem sabe?!, porém me amedronto fácil com o que vai escrito na lata de tabaco, advertindo-nos de que aquilo provoca câncer. Deus me livre! Pretendo ser velho, e com outros velhos da mesma idade, contar histórias da década de 90 e reclamar do preço dos medicamentos com a mesma bravura com que os antigos navegadores se lançavam ao oceano desconhecido.

